“Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto… até que amanheça.”

Não sabia bem ao certo como começar esse post… muito menos se devia de fato começa-lo. Como escrever, para mim, é quase sempre o melhor remédio… eis então que me vejo aqui, de volta ao blog.

Após passar algumas horas na frente da tela do computador, me lembrei do agradecimento que fiz na minha monografia e decidi por “começar esse post” compartilhando o trecho inicial dele aqui:

AGRADECIMENTOS

Ao meu pai, Ildaci, pelo constante exemplo de perseverança, caráter, honestidade e pelo apoio – incondicional – ao longo de toda minha jornada.

O agradecimento, feito em 2013, resume bem o que quero expressar com esse post; minha eterna gratidão ao homem maravilhoso que tive orgulho de chamar de pai ao longo dos meus 27 anos.

Sou grata pela vida, pelos momentos bem vividos, pelo carinho, pelas broncas, companhia. Pelo amor, pelos abraços, sorrisos e ensinamentos. Pelo exemplo.

Sou grata por cada minuto que passei ao lado dele; não só os bons, mas também os difíceis… que nos fortaleceram e estreitaram ainda mais nossa relação.

A saudade é companheira constante… mas as boas lembranças me fazem companhia e transformam, de forma sutil, aquele pinguinho de dor em conforto.

Em 2009, tive que escrever uma autobiografia para uma das matérias que fiz na UnB. Gostaria de aproveitar esse espaço para compartilhar com vocês um trecho do texto que escrevi naquela época e que relata uma grande ‘aventura’ vivida por mim e por meu pai.

Que a minha lembrança sirva de conforto aos amigos e familiares que, como eu, estão saudosos. E que a imagem que vocês tenham do Dr. Ildaci seja sempre a desse homem alegre do meu relato:

“Papai tinha a fama – dada e aumenta por minha mãe – de comprar “urubus voando”; sabe tudo aquilo que ninguém compra, aquelas coisas sem tanta utilidade, dignas de qualquer Polishop? Meu pai a-ma-va!!! E mamãe, claro, sempre implicava e insistia com os amigos (Maria Lúcia, Chico e Marta) para ajudá-la na campanha de não incentivo aos “urubus voando” de meu pai – campanha a qual eu particularmente nunca aderi, pois, partilhava com meu pai o gosto pelos “urubus”.
Tudo aconteceu quando eu tinha 7 anos. Meu pai me matriculou em aulas de teclado, ele sempre foi muito sensível à música no geral e achou que seria uma boa idéia. Minha mãe gostou da idéia, pois ocuparia a janela vaga que eu tinha depois das aulas de inglês, mas nunca foi tão incentivadora assim das aulas em questão. Papai pensou que se ela me visse tocar talvez mudaria de idéia e, para poupar o trabalho de desloca-la até a escola de música, teve a brilhante idéia de me comprar um teclado – mas plenamente ciente de que, na cabeça de minha mãe, isso incontestavelmente era um GRANDE e caro “urubu voando”, logo, precisávamos de um plano!
Explicamos a situação para Maria Lúcia, que concordou em conversar com minha mãe e alimentar a idéia de que eu precisava de um teclado e que já era hora de eu ter um. Enquanto isso, compramos o bendito – um Yamaha PSR -520, último modelo na época – e o escondemos na casa da Maria Lúcia – tínhamos que amansar minha mãe primeiro!
Depois de muito blá blá blá pra lá e pra cá, quando minha mãe estava bem calminha, o sinal ficou verde para irmos pra casa levando o teclado – mas ela ainda não sabia da compra. O único detalhe foi que nossa cara não enganou minha mãe; ela tinha certeza, assim que nos viu, que eu e meu pai havíamos aprontado. Sua calma durou o tempo de ver o teclado; em meio as falas da Marilia Lúcia enaltecendo-o e falando do quão bem eu tocava, a calma foi pro espaço! Mas, entre tanta discussão, o teclado foi aceito e ela finalmente descobriu que eu até tocava bem! Hoje em dia, ainda me pede pra tocar Romeo e Julieta pra ela.”

Em More Fruits of Solitude, William Penn diz que “A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros porque sentem necessidade de estar presentes, para amar e viver o que é onipresente. […] Este é o consolo dos amigos e, embora se diga que morrem, sua amizade e convívio estão, no melhor sentido, sempre presentes, porque são imortais.”

Acrescento a esse trecho a fala de um dos meus personagens preferidos da literatura: “Para uma mente bem estruturada, a morte é apenas a aventura seguinte!”.

Pai, que em meio a sua nova aventura, você continue olhando por nós e nos guiando dai! A saudade e o amor são eternos! Brindemos à vida que você viveu – de forma plena – e ao nosso futuro honrando seu legado daqui!

papaieeu

P.s.: Para quem possa ter ficado com um pouco de curiosidade, eu ainda toco teclado/piano. Não tão bem como antes, mas considero terapêutico!

P.s.2: J.K. Rowlling usou esse trecho de More Fruits of Solitude no prefácio de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Talvez seja dai que alguns de vocês o reconheçam.

P.s.3: Sim gente, o personagem é o Dumbledore, de Harry Potter.